Resenha, não tão resenha do filme Breathe In (Paixão inocente)

Resenha, não tão resenha do filme Breathe In (Paixão inocente)

A resenha de hoje segue o mesmo padrão seletivo das outras. Não procuro um filme novo, no cinema, aquele em que todos estão malucos para assistir. Procuro o filme que mais me chamar a atenção por diversos motivos. E no caso, do filme de hoje o Netflix, mais uma vez, me ajudou na seleção.

Corri para a categoria “drama”. Lá estava, uma capa intrigante uma sinopse meia boca. Dizia, basicamente que um professor de música lembrava das coisas boas do seu passado, e que um tal mina estaria prestes a abrir seus olhos. Tudo bem, tudo bem. Eu concorco que essas sinopses curtas são ruins. Mas tive de assistir.

*Alertaaaaa Spoiler!!!*

Keith Reynolds, um professor de música de colégio. Casou-se com Megan, e abandonou sua carreira de músico para viver em uma cidade pequena a uma hora e meia de distância de Nova York, logo após o nascimento de sua filha Lauren. Após 18 anos, ele se lembra de todos os bons momentos que viveu antes da pacata decisão de se tornar professor por necessidade. Esse seu “arrependimento” fez com que Keith tentasse uma vaga permanente em uma orquestra, a ideia era de se mudar para a cidade novamente e tentar reiniciar sua carreira.

A esposa não o apoiava como deveria. Não quis entender a situação, conversando de forma autoritária, como se a decisão fosse exclusivamente dela. Todas as boas lembranças interpretadas por Keith, eram más lembranças na mente de Megan. Isso destruía qualquer imagem de casal feliz.

Foi quando a família hospedou Sophie por um semestre de intercâmbio educacional. A menina havia sido criada por seus tios, por ter perdido a mãe cedo demais, e por consequência algo perturbou o seu pai. Graças a isso, Sophie desenvolveu uma enorme habilidade com o piano com a ajuda de seu tio. Esse aspecto semelhante pela música fez com que a mente de Keith começasse a se confundir.

Sophie hesitou por alguns dias a tocar na frente de Keith. Provavelmente não queria expor o seu talento para um professor de música. Tentou se reservar um pouco. Mas logo de cara, Sophie já estava a sentir algo por Keith, ao ouví-lo se preparar para a apresentação, o som do violoncelo expressava o nervosismo do rapaz.

Eles começaram a ter pequenas conversas sozinhos. Algo já estava diferente. A incerteza de Keith e sua vontade de elevar sua carreira como músico na cidade fez com que ele começasse a tentar ser mais autônomo, e não depender de outras pessoas para ser feliz. Em uma competição de natação de Louren, a chuva fez com que todos corressem para casa. Megan teve de ajudar a levar várias amigas de Louren para casa. Enquanto isso Sophie e Keith entraram no carro sorridentes e foram para casa.

Já em casa o clima começou a esquentar. Depois de algumas conversas, sobre liberdade, Sophie decide tocar algo para Keith. Sentados ao piano, Keith se apaixona pela música e não consegue se conter. Inicie carícias sobre Sophie que retribui nervosamente.

Daqui o romance começou. Keith fora convencido de que poderia se aventurar novamente e seguir uma vida em que ele não se sinta frustrado. Sophie abriu seus olhos e tinha toda a arte que ele buscava. Vamos então pensar em pouco sobre o acontecido…

Keith. Um homem cujos sonhos foram interrompidos pelos acontecimentos da vida – Isso é o que diriam as pessoas da auto-ajuda. Eu digo, apenas, que a felicidade de Keith em termos de realização profissional, fora interrompida por sua falta de coragem. A vida de nada teve a ver com isso, tendo em vista que ele poderia ter resistido, em todos os momentos. Ou após o crescimento da filha, poderia ter tentado outra vez. Mas não o fez.

Por que? Medo!

Keith abdicou de suas vontades para acatar as vontades de sua esposa. Talvez num aspecto de proteção, talvez na tentativa de se sacrificar por outras pessoas, mas isso realmente vale a pena? A felicidade de outras pessoas vale a sua infelicidade? Seria possível conquistar as duas coisas?

Podemos culpar a vida? Podemos culpar a esposa? Podemos Culpa o nascimento da filha?

Eu sugiro que não. Sugiro até que a culpa seja clara e exclusivamente do professor que detesta dar aula, mas permanece na zona de conforto, com medo de enfrentar problemas. Talvez ele saiba o quanto é inseguro e deixe que isso o consoma por completo. Sem tentar. Mas quando viu a jovem, talentosa, fora de seu país, cheia de certezas sobre a sua caminhada, querendo ter escolhas… O velho Keith pensou que podia se aventurar outra vez.

Os dois arrumaram suas malas, seguiram para um conserto, e iriam fugir dalí. Dirigir sem rumo até qualquer lugar. O que expressou ainda mais o medo do professor. Ele saiu de casa fugindo das responsabilidades. Por que não informou a sua esposa que estava gostando de outra pessoa e pretendia seguir a sua carreira com uma vida nova? Por que teve de fugir? Tentar sumir?

A falta de coragem das pessoas, refletem o que fazem da vida inteira. A maioria vive a mentir pra si mesmo, na tentiva de sofrer menos. Só que isso não é nada econômico, tendo em vista que o custo-benefício não está presente de forma alguma. Pense comigo. Você deixa de enfrentar um problema agora, pequeno ou grande, e acredita que se livrou, mas o medo de ser descoberto(a), a incerteza de estar fazendo a coisa certa, os pesadelos que seguem essas escolhas, demonstram claramente que não estamos ganhando tempo. Estamos perdendo tempo.

Isso se reflete no trabalho, no ambiente familiar, na escola, na faculdade… Todos os dias você pensa e se lamenta sobre problemas que ainda nem chegaram. Quando a professora te informa sobre o TCC, seu medo começa a doer, – o medo de não ser capaz – sua expressão quer mostrar preguiça, pois é um sentimento comum, mas não admite que tem medo. Quando seu chefe te pede uma aventura em uma atividade nova, você começa a pensar “como vou fazer se eu não sei?”. Porra… E você sabia o que fazer quando começou a andar? A comer? A falar? A escrever? A participar de uma entrevista de emprego?

A vida não é tão dificil quando aprendemos a enfrentar. Tente antes de achar que não consegue. Retire do seu vocabulário as palavras fortes como “nunca”, “sempre”… Comece a dizer “TALVEZ, EU VOU TENTAR”. Porque nada será perdido se você tentar, o ganho com a experiência de errar é muito alto. Posso até ousar em dizer que no acerto o aprendizado é fraco.

Por que o Keith precisou que uma jovem surgisse do nada pra mostrar a ele que a vida ainda estava funcionando? Ele não sentia mais seus braços? Suas pernas? Precisava de um empurrão?

Você precisa se conhecer. Saber o que quer e andar com suas próprias pernas. Essa frase pode ser repetida em palestras de auto-ajuda, mas eu não poderei dizer que “basta acreditar”, “basta sonhar”… Se bastasse sonhar, estariamos vivendo um “caos de fadas”. Não basta sonhar, não temos magia na cabeça. Mas posso dizer a você palavras semelhantes que realmente funcionam:

“Basta fazer”

“Basta sair do conforto”

“Basta aprender”

“Basta não desistir”

“Basta falar a verdade”.

Mas como esses “bastas” não podem funcionar sozinhos, não basta nada. Nada é fácil o suficiente pra eu me contentar em dizer que apenas uma ação será o suficiente. No ditado em que minha avó repete “a mentira tem perna curta”, sugiro que você altere essa observação de má conduta para “A verdade tem perna longa”. Agora estamos falando do “copo meio cheio”.

Sinta-se à vontade para tentar. E antes que você se ache menor por sentir medo… saiba que a coragem só surge para aqueles que possuem um medo para enfrentar. Retire de sua mente que coragem significa o não-medo. Afinal o título de corajoso(a) só será entregue para o leão medroso que do seu medo fez a bravura.

E para finalizar… Keith, em seu momento furtivo, obteve a notícia que sua filha havia sofrido um acidente de trânsito. Ele correu para o hospital e voltou para a sua vida medíocre, deixando os seus sonhos de lado. Há quem diga que se sacrificar pelo próximo é algo nobre, mas eu convido você a pensar no que valeria mais, sendo a vida um instante único.

Carlos Hallan

17, Julho de 2017