Resenha, não tão resenha, do filme Mãe!

Resenha, não tão resenha, do filme Mãe!

“A mulher sabe das coisas”, geralmente quem fala isso é uma mulher que possui algum nível de autoridade superior ao seu e precisa que você a obedeça. Minha avó faz a mesma coisa, só que ela quer me encher de açúcar caramelizado com gosto de abacaxi ou jenipapo me dizendo que a medicina irá curar minha tosse com doce. Por aqui chamam de lambedor, deve ser porque esperam que eu comece a lamber a colher como uma criança da geração passada com seu cherry pop do helicóptero. Pois eu realmente não quero lamber um troço quente tão doce quanto o doce da batata doce que dizem ser o mais doce dos doces, muito menos com gosto de jenipapo que só o nome já embrulha o estômago.

Mas a minha avó acertou em cheio quando criou a profecia que poetisa este dia. Diriam os amantes da astrologia: “ela acertou mesmo”. Mas minha mente, graças a Carl Sagan, está vacinada contra os vieses de confirmação, e eu acho que ela não acertou exatamente nem rogou uma praga, mas assistiu o NETV com uma boa frequência para saber que assaltos acontecem em sua cidade. Ela me informa do assalto há uns 18 anos, porque aqui em Recife, ou talvez no Brasil, dizer que alguém poderá ser assaltado é o mesmo que profetizar: “Tenho certeza que você comerá alguma coisa depois de hoje”. E nessa ideia você já deve ter imaginado que eu fui assaltado…

Estava no escritório, trabalhando com uma cara de peixe boi enjaulado esperando algum pudim que reanimasse o dia. Até que entrei numa discussão bosta sobre mouses. Certamente não seria uma discussão proveitosa e muito menos arrebatadora, porém fiquei um pouco nervosinho e fiz birra. Saí do escritório para escrever vislumbrando o céu noturno e sua frieza refrescante, peguei o smartphone e abri o Google Docs, mas notei que estava estressado demais para escrever e coloquei o celular no bolso. Olhei desconfiado para os dois lados e notei que não haviam ameaças a não ser dois caras de moto que esperavam alguém em cima da calçada da vizinha. Minha imaginação geralmente é bastante abrangente e serviu para que eu imaginasse que os dois caras poderiam estar ali para me roubar, mas eu tenho problemas com decisão e escolhas que sirvam para me beneficiar e foi aí que ignorei a imaginação e me fudi.

As duas motos passaram por mim e os manos se foram -- foi o que eu pensei até eles chegarem ao final da rua --. Olhei novamente para os amigos macabros e vi que estavam dando a volta, logicamente que isso não seria normal, mas não quis acreditar na minha imaginação de novo. Eles passaram por mim novamente e um deles deu mais uma volta e parou na minha frente. A aparência de um revólver e meu condicionamento físico não me deixaram dar uma surra nos caras, o cara da garupa parecia ser bastante robusto. Se não fossem esses empecilhos eu não teria deixado, na próxima estarei pronto com a fórmula do Hulk em meu sangue (veja como eu me rendi a segurança do meu país, já imagino quando será a próxima).

Mais essa merda toda de ser assaltado tem a turma do “ainda bem que foi só o celular”, “graças a Deus que eles não levaram mais nada”. Definitivamente ao ouvir coisas como essas eu penso se devo voltar a raiva contra esse povo social, porque eu preferia dizer “ainda bem que não levaram porra nenhuma” ou “graças a Carl Sagan, não existem mais ladrões, todos viraram astrofísicos e conheceram o cosmo”. Eu precisava de algo para esfriar a cabeça, foi aí que a maluquice bateu nos colegas de trabalho, e fomos assistir MÃE no cinema, na sessão das 9h da noite. Lá, aguardando a sessão começar, no meio de batatinhas fritas, esfirras, sushis, hambúrgueres e todo o resto, a mulher do grupo só queria sorvete, e é sempre assim. Qualquer dia desses vou trancar as portas de casa e esconder as chaves, alguém terá que comer mais do que sorvete.

Era o filme que eu precisava. Uma excelente crítica religiosa que compila toda a aparente complexidade da religião cristã em ações humanas e conceitos comuns. “A mulher sabe das coisas”, foi isso que saí imaginando, entendendo que esse saber na verdade caracteriza-se por ser um saber movido de preocupação, cuidado, limites sobre a coragem e um pensamento mais lógico sobre a vida. Não que eu conheça muitas mulheres assim, e não significa que não conheça a diversidade das coisas, mas agora falo exclusivamente da mulher do filme.

O filme conta a história de Deus. O Deus que conhecemos, não o Deus de utopias, mas o Deus que reage, pensa, constrói e destrói coisas com suas ações racionais e individualistas. O patriarca do filme chegava a sacrificar o seu próprio filho para reter consigo a adoração e os holofotes do pensamento de cada humano. O sacrifício foi contra a mãe natureza, o Diabo, o pensamento de cuidado da vida planetária. Foi a reflexão mais intensa e interessante que me coloquei a desfrutar diante de um filme. Ninguém tem nome. Apenas pronomes. O dono da casa é um escritor, o grande poeta, que escreve de acordo com o sentimento de sua inspiração sobre sua vivência. A mulher, Jennifer Lawrence, é a esposa do dono da casa, retratada como poderosa capaz de construir uma casa inteira sozinha, a terra. Mas o seu marido, o machista e controlador marido, tomava as decisões, escolhia o que fazer com a vida dos dois, e sempre com o pensamento egoísta de chefia.

Ao meu ver a mulher foi a mãe natureza, foi a representação das punições contra a humanidade, do Diabo que é contra os humanos e a mãe de Jesus. Além de ser uma mulher comum tentando não ser prejudicada pelas ações imprudentes do seu marido, sem direito a escolha e sufocada pelo sofrimento que não é seu. Observou a humanidade destruir o mundo como se o seu marido as tivesse ordenado por entregar a eles o poder de consumir e assumir a sua casa sem controle e sem supervisão. Deus estava completamente entorpecido pela a adoração de sua obra.

O desenrolar é como a Bíblia é contada de forma popular sem aprofundamentos. No começo existia a ruína de um mundo antigo, Deus deu uma nova vida ao mundo, trazendo a mulher de volta à vida. Ela reconstruiu as ruínas da casa, e fez de tudo agradável. Logo surgiu um estranho, o Adão, que após uma dor teve um corte na altura da costela e no outro dia Eva surgiu. Eles começaram a destruir a paz da casa e tentaram entrar no paraíso várias vezes, que seria o escritório do criador, do poeta. Seus filhos também apareceram e houve a morte de Abel seguida da marcação de Cain como um corte na testa. Cain foi expulso.

O criador mantinha guardado o fruto da vida em forma de cristal em seu escritório. Deus não era um homem que podia intervir na vida das pessoas, era como um poeta dizendo coisas inspiradoras e modificadoras de pensamentos. Era como se Deus fosse um artista, um amante da liberdade artística e da admiração pelo seu trabalho, ele tinha a necessidade de socializar de uma forma soberana olhando para todos de cima fingindo modéstia. As pessoas invadiram, o adoraram, criaram armas, mataram, praticaram luxúria em sua cama, criaram cultos individuais, interpretações diferentes de suas palavras, charlatões, mensageiros e pastores.  Tudo bem arquitetado e organizado para questionar a forma como a insanidade domina nossa globalização. Por fim, o caos só aumentou, Deus deu seu filho para a multidão saciar sua loucura, e o sacrifício pareceu impensado, como se sua necessidade fosse de ser um pouco mais adorado entre a felicidade e o sofrimento da plateia.

A mãe acordou e viu seu filho morrendo no meio da multidão. Quando chegou perto viu que todos comiam um pedaço da carne do seu filho… O ciclo estava pronto para recomeçar, a mãe destruiu a casa inteira em chamas. Deus extraiu de seu corpo o cristal e a casa foi reconstruída, e uma nova esposa surgiu na cama. O egocentrismo de Deus, pareceu o foco de tudo.

Carlos Hallan

05, Janeiro de 2018